sexta-feira, abril 30, 2010

Marighella e Bin Laden são a mesma coisa para os tucanos

A página do Mobiliza PSDB fez um quadro comparativo da trajetória dos pré-candidatos à presidência da República.

Vejam que dizem que Serra jamais integrou “grupos terroristas armados”.

Já Dilma, durante a ditadura, “ingressou em grupos armados, responsáveis por assaltos, sequestros, assassinatos” e foi casada com dois “terroristas”.

O PSDB considera Carlos Marighella como o Bin Laden brasileiro.

E os grupos que lutaram contra a ditadura militar são ascendentes do PCC (de fato, os tucanos têm trauma com o PCC...)

O que o “ex-terrorista” que integrou a ALN (Ação Libertadora Nacional) Aloysio Nunes Ferreira, grão-tucano que foi secretário da Casa Civil do governo Serra e ministro da Justiça de FHC, vai achar desse tipo de tratamento?

Aloysio Nunes não deve ter vergonha do seu passado de terrorista, assaltante, sequestrador e assassino (nas palavras do PSDB).

Tanto que estava na mesa da solenidade que deu a Carlos Marighella o título de Cidadão Paulistano, na Câmara dos Vereadores de São Paulo, no dia 4 de novembro de 2009 (exatos 40 anos depois do seu assassinato).

Aloysio Nunes é o primeiro da direita.

Estranho é que o PSDB nasceu do PMDB, que combateu a ditadura, mas adota agora a mesma fraseologia dos tempos autoritários, que era usada para legitimar os assassinatos dos seus inimigos... Deve ser a companhia do DEM (descendente da Arena).

PSDB entrega: a grande mídia é nossa

Leia os jornais das grandes empresas de comunicação, coloque no seu blog, divulgue no Twitter, comente no Orkut, Mobilize! Os colunistas, analistas e editoriais são nossos!

É o que dizem os tucanos, em texto sobre a cobertura da imprensa na página Mobiliza PSDB, em "Análises na imprensa elogiam discurso de Serra. Divulgue!".

A tática dos tucanos é clara: a Folha, o Estadão e O Globo produzem o conteúdo, e basta a divulgação pela "militância" tucana (vejam o que dizem: "O conteúdo está à sua disposição, agora é sua vez de espalhar os textos e contribuir para a mobilização do país!").

Tudo bem que a grande mídia é Serra nas eleições, mas não precisa deixar na cara, porque os mais ingênuos podem perceber...

domingo, março 28, 2010

Adriano, a favela e o preconceito

Desde que Adriano saiu da Internacionale, de Milão, e voltou ao país, porque não queria mais ficar longe do lugar onde nasceu, passei a acompanhar com mais atenção as colocações dele.

Logo depois que foi contratado pelo Flamengo, ele deu uma entrevista no programa global Esporte Espetacular (trechos foram ao ar no Fantástico), que foi dos depoimentos mais impressionantes que assisti na televisão.

Tinha um caráter classista: nasci na favela, sou favela e serei favela. E ponto.

Isso foge à regra dos brasileiros pobres que fazem sucesso, e esquecem de onde vieram.

Na verdade, não esquecem. Simplesmente não voltam àqueles lugares e omitem as suas origens. Exemplos não faltam.

Nesses dias, dando uma olhada no blog do Azenha, achei um texto de Lúcio de Castro, um jornalista esportivo da ESPN Brasil - que até então eu não conhecia.

No texto, ele antecipava uma matéria na qual a TV Globo, no Fantástico, apresentaria duas fotos do Adriano.

Em uma foto, ele portaria uma metralhadora; na segunda, estaria fazendo as iniciais de uma das facções do crime organizado carioca (devia ser CV).

Ou seja, um absurdo! Um grande absurdo. O maior absurdo deste país!

Cada um enxerga o país e constrói absurdos a partir da sua visão de mundo (individual e de classe).

Com isso, Adriano poderia perder a vaga na Copa. Não pelo futebol, mas pelo mau exemplo.

Uns podem fazer determinadas coisas; outros não.

O texto do Lúcio de Castro é um primor (para ler, clique aqui).

Parte de um princípio simples: nos tempos em que ele trabalhava na Globo, todas as denúncias de corrupção contra qualquer pessoa envolvida no esporte (Ricardo Teixeira?) eram barradas.

Motivo: esporte é entretenimento.

No entanto, no momento de expor a vida de um jogador preto favelado potencialmente alcoólatra, com orgulho de ser favelado e convivendo com favelados, a "regra" não vale?

Resposta: não vale mesmo, por causa do preconceito! (isso faz parte do entretenimento?)

No final das contas, a matéria nem foi ao ar (motivo não identificado). Independente disso, o texto apresenta elementos importantes para a análise do tema.

Depois disso, fui ao blog do tal Lúcio de Castro, e encontrei outros textos muito bons.

Em um dos textos (clique aqui para ler), ele acerta "na mosca" em uma comparação.

Traça um paralelo entre o Adriano e "um político brasileiro, alto escalão, de importante estado da federação" (Aécio Neves) que “boas fontes garantem que...” usam drogas.

Sobre o Aécio, nunca a TV gastou um segundo. Aliás, quem sabe disso?

Por que escrevo tudo isso?

Porque é tão difícil encontrar algo tão interessante na internet, que trate em alto nível de costumes e política juntos, que achei que valia a pena compartilhar.

Agora está compartilhado.

Abaixo, mando a resposta que o escritor Eduardo Galeano deu ao Lucio de Castro sobre o assunto.

“...Eu creio que o caso de Adriano é revelador, como bem disse, de preconceitos e julgamentos que vão além das anedotas.

O bombardeio que Adriano sofre revela, por exemplo:

- A obsessão universal pela vida privada dos que tem êxito, e acima de tudo pelos desportistas vencedores que vem da miséria e que tinham nascido estatisticamente condenados ao fracasso.

- Exige-se deles que sejam freiras de convento, consagrados ao serviço dos demais e com rigorosa proibição do prazer e da liberdade.

- Os puritanos que os vigiam e os condenam são, em geral, medíocres cujo desafio mais audacioso, sua mais perigosa proeza, consiste em cruzar a rua com luz vermelha, alguma vez na vida, e isso tem muito a ver com a inveja que provoca o êxito alheio.

- Tem muito a ver com a demonização dos pobres que não renegam sua mais profunda identidade, por mais exitosos que sejam.

- E muito tem a ver, também, com a humana necessidade de criar ídolos e o inconfessável desejo de que os ídolos se derrubem.

Um abraço do teu amigo,

Eduardo Galeano