segunda-feira, abril 25, 2005

Le mort saisit le vif

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O texto abaixo surgiu a partir de uma discussão com alguns amigos, em especial o companheiro Alexandre Gajardoni, sobre racismo no Brasil e a prisão do jogador argentino que fez ofensas racistas contra o jogador Grafite, do São Paulo. A melhor forma de trabalhar idéias e formulá-las é colocando-as em confrontação e em debate, que continua aberto.


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Além dos males modernos, oprime a nós uma série de males herdados, originários de modos de produção caducos, com seu séqüito de relações políticas e sociais contrárias ao espírito do tempo. Somos atormentados pelos vivos e, também, pelos mortos. Le mort saisit le vif. [O morto tolhe o vivo]
Karl Marx, em O Capital



A diferença entre racismo e outras formas de preconceito é que a sociedade brasileira é estruturada pelo racismo (não só por ele, que é um dos fatores determinantes para a nossa constituição social). Desde a escravidão, os negros estão na base da pirâmide social e, os brancos, na parte superior. A escravidão acabou em 1888, com a Lei Áurea, mas pouca coisa mudou na estrutura racial.

Os negros foram impedidos de terem propriedade, por meio da Lei de Terras (decretada já em 1850), acesso a escola, alimentação suficiente, habitação decente, entre outras coisas, e ficaram limitados a atividades menos qualificadas, ficando como serviçais dos brancos.

No processo histórico, tal mecanismo de exclusão foi diluído - há negros com boas condições de vida, pardos pobres e brancos miseráveis etc. -, no entanto, a estrutura social racista é a mesma. Além dela, claro, tem a questão de classe, que não pode ser ignorada. Por isso, enquanto os brancos são excluídos por diferenças de classe, os negros são marginalizados por uma questão de classe e raça.

Tratar da questão de raça hoje não é, necessariamente, colocar brancos e negros em conflito. O que precisamos é que a sociedade brasileira e mundial como um todo (povos brancos, pretos, pardos, orientais e indígenas e também as nações colonizadoras, colonizadas, exportadoras de escravos) subverta a lógica da exclusão do negro e formule políticas públicas que acabem com o processo histórico que se perpetua até hoje.

O negro faz seu papel quando se identifica com os escravos, pois lá estão as raízes da atual exclusão, além de ser um elemento de coesão dos negros para tentarem a própria emancipação. Por outro lado, convém ao branco deixar isso de lado, afinal de contas, não é nenhum orgulho. Mesmo assim, a sociedade brasileira precisa, em primeiro lugar, assumir politicamente que o país apresenta uma estrutura racista. Só a partir disso poderemos mudar tal situação.

Não se pode trabalhar com a idéia de que os brancos são culpados pela situação dos negros. Muito menos se deve alimentar qualquer sentimento de vingança. Isso é uma questão política, e tem de ser tratada politicamente, com outras terminologias e regras. Tratar dessa maneira tumultua, fragmenta e não resolve.

Sendo assim, é preciso colocar alguns pontos: Em primeiro lugar, precisamos de um diagnóstico da situação: a sociedade brasileira é estruturada pelo racismo; segundo, a sociedade e o Estado precisam admitir o processo histórico que exclui o negro; terceiro, é preciso construir também políticas públicas concretas, que vão requerer um sacrifício da sociedade como um todo, para acabar com o ciclo racista; para finalizar, os negros precisam se organizar e pressionar por mudanças, porque ninguém vai fazer nada por eles (Como diz o preto até os ossos Mano Brown: "Quem gosta de nós, somos nós mesmos").

Tem razão aquele refuta a idéia de que "todo branco é racista e todo negro sofre preconceito, todo branco é culpado pela situação dos negros". Como disse acima, falar em culpa é besteira e foge da discussão política. No entanto, precisamos ter em mente que brancos, negros, índios, descendentes de orientais fazem parte de uma sociedade estruturada no racismo contra os negros. Dessa forma, a sociedade como um todo precisa ter consciência disso para superar tal lógica.

Alguns brancos dizem o seguinte: Eu, por ser branco, devo me identificar com aqueles que escravizaram e batiam nos negros? Para mim, devemos sim, porque os brancos (escravistas ou não) formaram um bloco social (como os negros, descendentes de escravos ou não, também, mas do outro lado) que sustenta a estrutura racista da sociedade, que concentrou o capital nos brancos e a exploração do trabalho e discriminação nos negros. Claro que a sociedade de classes exclui também o branco, mas aí a conversa é outra.

Não é possível pensar em uma solução para o problema do racismo estrutural brasileiro se não analisarmos o processo histórico da sua formação. Não dá para ignorar o passado, que significaria colocar em segundo plano os motivos. Se alguém acredita que temos que discutir a solução e deixar de lado o que aconteceu, podemos dizer que Karl Marx foi um pensador inepto (concordando ou não com ele) e O Capital um livro insignificante.

Prender alguém por crime de racismo, como prevê a lei brasileira, tem conseqüências importantes na luta anti-racista. Tal atitude pode não acabar com o racismo, mas coloca no plano simbólico (lugar onde o racismo é muito forte) a noção de que ser racista é crime, que os negros precisam ser respeitados e tiveram força de organização política suficiente para que isso fosse regulamentado. É a legislação nacional admitindo o caráter racista da nossa sociedade e criando um instrumento para contê-lo.

As cotas em universidade realmente são polêmicas, mas eu sou a favor. É uma forma de o Estado assumir a estrutura racista da sociedade e tentar intervir para modificá-la. Além disso, no plano simbólico é importante termos médicos, jornalistas, engenheiros, cientistas, professores etc. pretos. É uma forma dos outros se espelharem e saberem que é possível.
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Fora que a convivência entre brancos e pretos, no mesmo nível (como alunos da universidade, por exemplo) vai fazer a sociedade avançar e, naturalmente, dissolver o sentimento racista. Mesmo com as cotas, é preciso ter claro que é preciso revolucionar o sistema falido da educação, uma vez que um povo que não tem acesso à educação de qualidade não tem consciência e força para a sua emancipação.

Igor Felippe